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O sistema brasileiro é mais centrado no médico do que os sistemas de países de referência e tem baixo uso de indicadores de desempenho. Além disso, o conhecimento de gestão na área de saúde é pouco valorizado.

Ao comparar o Brasil com outros sistemas de referência, observa-se que existem poucos incentivos para a formação de gestores na saúde brasileira e baixa valorização dos profissionais de gestão no setor.

O mercado brasileiro incentiva a formação de especialistas em detrimento de generalistas e gestores e existem poucas opções de especialização em gestão. Além disso, o setor acaba não sendo atraente para profissionais de gestão atuantes em outros setores. No Reino Unido, 78% da liderança de hospitais públicos é formada por não-médicos. Esse número é ainda maior nos Estados Unidos (95%). Ainda no Reino Unido, há aproximadamente 92 cursos de pós-graduação em gestão de serviços de saúde e, nos Estados Unidos, há aproximadamente 57 programas de dupla graduação em Medicina e Administração.

Em um sistema centrado no papel do médico existe pouca flexibilidade na utilização de profissionais não-médicos em atividades de menor complexidade, o que poderia aumentar a capilaridade do sistema, ampliando o acesso para a população. A proporção entre não médicos e médicos é três vezes menor do que em países de referência.

Por exemplo, no Reino Unido, mais de 50% dos partos são realizados exclusivamente por midwives – profissionais especializados na saúde reprodutiva – sem o envolvimento de um médico. Nos Estados Unidos, Austrália e Canadá profissionais técnicos realizam exames de ultrassonografia e enfermeiros especializados realizam anestesias cirúrgicas. O uso de multiprofissionais reduz o custo do sistema e aumenta o acesso.

No NHS do Reino Unido, ter o primeiro contato com o paciente por meio de enfermeiros gerou uma redução de até 2% nos gastos com atenção primária. O NHS historicamente utiliza o médico de família como porta de entrada do sistema, porém estuda-se a utilização de enfermeiros para primeiro contato e posterior direcionamento aos médicos.

Outra prática de gestão ineficiente utilizada no Brasil é a medição e divulgação de indicadores de custo e qualidade do sistema, que são muito limitadas. Isso embora se saiba que medir os indicadores adequados tem efeito positivo na eficiência de um sistema.

No Brasil, é necessário incorporar indicadores que atendam às novas necessidades do cidadão e ao planejamento adequado do sistema. Para tanto, é necessário aumentar a granularidade dos dados e investir na transparência – de fato, sistemas que implementaram maior transparência de indicadores reduziram em até 30% os índices de mortalidade e em 25% os dias de internação (por exemplo, Alemanha, Canadá, Estados Unidos).

Trecho de capítulo retirado da publicação Coalizão Saúde Brasil – Uma agenda para transformar o sistema de saúde