
A instituição também participou de debate sobre “IA, automação e fluxos digitais”, representada por seu presidente Giovanni Guido Cerri
O Instituto Coalizão Saúde (ICOS) marcou presença, mais uma vez, na Jornada Paulista de Radiologia 2026, realizada pela Sociedade Paulista de Radiologia e consolidada como um dos eventos mais relevantes da agenda nacional em saúde e tecnologia. A 56ª edição teve como tema “SPR–RSNA: unindo pessoas, expandindo horizontes” e reforçou a conexão internacional do encontro, que chega ao sétimo ano de colaboração com a Radiological Society of North America.

A primeira participação ocorreu no painel, promovido pela Abramed, “Como IA, Automação e Fluxos Digitais Estão Redesenhando o Trabalho Médico”, com a presença do presidente do Conselho do ICOS, Giovanni Guido Cerri, ao lado de Leonardo Modesti Vedolin, da DASA, e Cesar Higa Nomura, da Abramed, ambas associadas do ICOS, além de João Paulo Souza. A moderação ficou a cargo de Marcos Roberto Gomes de Queiroz, do Hospital Israelita Albert Einstein (também um associado do ICOS), e de Milva Pagano.
Na sequência, foi realizado o painel, promovido pelo ICOS, “Da Jornada do Exame à Linha de Cuidado: a Radiologia Vai Acompanhar… ou Liderar Essa Evolução?”, que contou com apresentação institucional conduzida pela vice-presidente do Conselho do ICOS, Claudia Cohn. O debate reuniu Thais Jorge, da Bradesco Saúde; Leonardo Modesti Vedolin; Marcos Roberto Gomes de Queiroz; e Rodrigo Lorenzo, da Siemens Healthineers – empresa também associada do ICOS. A curadoria e moderação foi de Armando Correa Lopes Junior, board member e strategic Advisor.
Antes do início do debate sobre a linha de cuidado, a vice-presidente do Conselho do ICOS, Claudia Cohn, apresentou a atuação institucional da entidade e situou o papel do ICOS no ecossistema da saúde. Em sua fala, destacou o caráter multissetorial da instituição, que reúne representantes de toda a cadeia produtiva da saúde: de prestadores de serviços, como hospitais, clínicas, laboratórios e centros de diagnóstico por imagem; à indústria, academia e varejo farmacêutico. “Diferente de muitas entidades setoriais, o ICOS abrange toda a cadeia de atores da saúde”, afirmou.
Criado há mais de uma década, o ICOS, como explanou Claudia, nasceu da necessidade de promover maior integração entre esses diferentes atores e de qualificar o debate sobre os desafios estruturais da saúde no país. Nesse contexto, a vice-presidente do Conselho ressaltou a atuação do Instituto na formulação e aprimoramento de políticas públicas, em diálogo com o Legislativo, Judiciário e o Executivo, além da contribuição técnica em temas estratégicos para o setor. “Trabalhamos muito fortemente na construção de políticas, para que possamos transformar o setor de forma mais integrada”, destacou.
Entre os exemplos, mencionou iniciativas que avançaram a partir de discussões conduzidas no âmbito do Instituto, incluindo contribuições para modelos de avaliação de valor em saúde e a participação no debate da reforma tributária, tema que motivou a produção de uma publicação com análises de diferentes especialistas e setores – com lançamento previsto para maio, em Brasília, durante mais uma edição do Fórum Político Permanente da Saúde, também promovido pelo ICOS.
A dirigente também reforçou que a presença do ICOS na Jornada Paulista de Radiologia 2026 tem como propósito não apenas fomentar discussões qualificadas, mas também ouvir os profissionais que atuam na ponta, incorporando diferentes perspectivas à construção de propostas para o sistema de saúde. “A intenção é trazer especialistas, mas principalmente ouvir quem vive a realidade do dia a dia”, pontuou.

Na condução do painel ICOS, “Da Jornada do Exame à Linha de Cuidado: a Radiologia Vai Acompanhar… ou Liderar Essa Evolução?”, o moderador Armando Correa Lopes Junior abriu a discussão com uma contextualização sobre os conceitos que orientariam o debate. Ao apresentar o tema, destacou a importância de diferenciar e, ao mesmo tempo, conectar três dimensões centrais: a linha de cuidado, a jornada do paciente e a jornada do exame. “A linha de cuidado seria como esse grande mapa, por onde o paciente pode caminhar dentro do sistema de saúde”, explicou.
Segundo Lopes, a linha de cuidado funciona como uma estrutura organizadora do sistema, orientando os caminhos possíveis dentro da assistência à saúde, desde a prevenção até o tratamento. Já a jornada do paciente representa a experiência concreta vivida pelo indivíduo ao percorrer esse percurso, que nem sempre se dá de forma linear, podendo começar, por exemplo, já em um estágio de tratamento, sem passar por etapas preventivas. Nesse contexto, a jornada do exame ganha relevância como um dos pontos críticos desse trajeto, com potencial para assumir maior protagonismo na organização do cuidado. “A jornada do paciente é a experiência real, e a jornada do exame é uma parte fundamental dela”, afirmou.
A partir dessa base conceitual, Armando direcionou a conversa para o papel da radiologia dentro dessa dinâmica, propondo uma reflexão sobre como o diagnóstico por imagem pode contribuir de forma mais integrada e estratégica ao longo da linha de cuidado. Ao estruturar o painel, também chamou atenção para a diversidade de perspectivas representadas entre os participantes, reunindo visões da prestação de serviços, da gestão, da indústria e do setor pagador, em linha com a proposta do ICOS de promover o diálogo entre diferentes atores do sistema de saúde. “A proposta é justamente trazer todos os atores para essa discussão”, concluiu.
As análises tiveram início com Leonardo Modesti Vedolin, da DASA, que compartilhou aprendizados práticos na tentativa de implementar um modelo de coordenação do cuidado a partir da medicina diagnóstica.
Ao comentar a experiência, destacou a complexidade estrutural do sistema de saúde brasileiro, especialmente no que diz respeito ao desalinhamento de incentivos entre os diferentes atores. “O modelo de saúde privada no Brasil tem, na sua origem, um sistema de conflito de interesses. Não é só fragmentado, os incentivos também são desalinhados”, afirmou. Segundo Vedolin, esse descompasso se manifesta, por exemplo, na relação entre operadoras, prestadores e indústria, dificultando a construção de uma lógica integrada de cuidado.
Outro ponto enfatizado foi a necessidade de uma base tecnológica robusta para viabilizar qualquer avanço nessa direção. Vedolin ressaltou a importância de dados estruturados, interoperabilidade e segurança da informação como pilares para a coordenação do cuidado. “Esse modelo exige uma base tecnológica muito forte, com governança de dados, interoperabilidade e segurança em nível elevado”, explicou, mencionando inclusive o impacto crescente dos custos associados à proteção contra ataques cibernéticos.
Ao longo de sua fala, também trouxe exemplos concretos das dificuldades enfrentadas na prática, inclusive dentro de uma mesma organização, ao tentar integrar diferentes frentes de atendimento. “Mesmo dentro da própria instituição, tivemos uma dificuldade extraordinária de fazer essa agenda avançar”, relatou, citando desafios na articulação entre atendimento hospitalar e domiciliar, mesmo quando havia ganhos evidentes para pacientes e para o sistema.
Apesar dos obstáculos, Vedolin destacou os aprendizados gerados pela experiência, especialmente na mudança de lógica da medicina diagnóstica, que passou a atuar de forma mais proativa na jornada do paciente. “Hoje, quando identificamos um caso com potencial impacto, a companhia se mobiliza para atuar naquela jornada de cuidado, mesmo sem incentivo financeiro direto”, afirmou.
Sobre se a radiologia deve acompanhar ou liderar essa evolução, Vedolin indicou que a especialidade tende a desempenhar um papel relevante dentro desse processo, ainda que inserido em uma dinâmica mais ampla de transformação do setor. “A radiologia precisa fazer parte e tem um papel importante tanto no custo quanto no desfecho”, afirmou.
Nesse sentido, destacou que a área reúne características que podem ampliar sua contribuição, especialmente pela forte relação com tecnologia e dados. “A radiologia é uma nativa digital por natureza. Poucas especialidades incorporaram tanto a tecnologia aos seus processos”, observou, apontando o potencial da área em temas como governança e interoperabilidade.

A discussão foi aprofundada a partir da perspectiva da fonte pagadora com a participação de Thais Jorge, da Bradesco Saúde, que abordou aspectos que destacam os desafios estruturais da coordenação do cuidado na saúde suplementar.
A diretora chamou atenção para o fato de que o sistema ainda opera majoritariamente orientado a eventos, e não à jornada do paciente, uma lógica que, segundo ela, não se restringe à radiologia, mas atravessa todo o funcionamento da saúde. Nesse contexto, destacou a dificuldade de consolidar modelos de cuidado coordenado em um ambiente marcado pela fragmentação e pela rotatividade, tanto de beneficiários entre operadoras quanto de vínculos no mercado de trabalho.
“Fica sempre o receio de investir na jornada do cuidado e, no momento de colher o retorno, aquele cliente não estar mais na sua base”, explicou. A ausência de integração de dados entre operadoras agrava esse cenário, dificultando a continuidade do cuidado ao longo do tempo. “Não existe ainda um modelo que permita que a jornada iniciada por uma operadora seja continuada por outra”, pontuou.
Thais também trouxe um elemento adicional ao debate: o papel das empresas que oferecem planos de saúde como benefício. Segundo ela, esses empregadores têm uma função relevante na coordenação da jornada, independentemente da operadora contratada. “Existe um papel muito importante das empresas que proveem o benefício de saúde nessa coordenação e na construção da linha de cuidado”, destacou, reforçando que, em última instância, as operadoras atuam como gestoras desses recursos.
Por fim, ao abordar possíveis caminhos para a evolução do modelo, apontou a Atenção Primária como elemento central para organizar o acesso e garantir a continuidade do cuidado. “Um modelo com porta de entrada estruturada, que permita a navegação e o direcionamento do paciente é, na minha avaliação, o ideal”, afirmou. Ao mesmo tempo, reconheceu os desafios para sua implementação no contexto brasileiro, tanto do ponto de vista cultural quanto estrutural, especialmente diante da fragmentação do sistema e da baixa integração de dados.
Marcos Roberto Gomes de Queiroz, do Hospital Israelita Albert Einstein, trouxe a perspectiva da prestação de serviços e da organização do cuidado dentro das instituições de saúde.
Ao retomar a ideia de múltiplos pontos de entrada, destacou que o paciente pode iniciar sua trajetória em diferentes momentos e frentes, o que torna ainda mais necessária a construção de uma lógica integrada. “O paciente pode entrar em qualquer ponto, então em algum lugar a gente precisa começar essa linha de cuidado”, afirmou. Nesse contexto, apontou a medicina diagnóstica como uma dessas portas de entrada possíveis, com capacidade de contribuir para a organização da jornada.
A partir da experiência institucional, ressaltou que o desafio não está apenas na qualidade individual de cada especialidade, mas na conexão entre elas. “Todo mundo faz seu trabalho muito bem feito, mas conectar todos esses pontos dentro de um racional único é a maior dificuldade”, observou, ao destacar que essa integração exige coordenação ativa e visão sistêmica do cuidado.
Queiroz também chamou atenção para os chamados “pontos de fuga” ao longo da jornada: situações em que o paciente sai do sistema ou interrompe o cuidado integrado por diferentes razões, como decisões clínicas ou limitações de cobertura. Ainda assim, apontou avanços na redução desses casos a partir do uso mais estruturado de dados e ferramentas de apoio à navegação do paciente.
Nesse sentido, destacou o papel crescente da tecnologia, especialmente no uso de dados e inteligência artificial para qualificar o cuidado. “Hoje a gente consegue usar esses dados para construir o racional da jornada do paciente e apoiar decisões mais assertivas”, afirmou, mencionando iniciativas que permitem consolidar o histórico clínico e ampliar a capacidade de análise.
Ao abordar especificamente a radiologia dentro desse contexto, reforçou que o laudo deixa de ser um ponto final e passa a ser parte de um processo mais amplo. “O relatório não é o fim, é o começo”, disse, ao enfatizar que o valor do diagnóstico está também na sua capacidade de orientar decisões clínicas e se conectar com as etapas seguintes do cuidado.
Por fim, trouxe um elemento adicional ao debate ao apontar a formação médica como um fator crítico para a efetividade desse modelo. Segundo ele, lacunas nesse processo podem levar ao uso inadequado de exames e à fragmentação do cuidado. “Muitas vezes, a medicina diagnóstica acaba sendo utilizada sem conexão com a linha de cuidado do paciente”, afirmou.

Rodrigo Lorenzo, da Siemens Healthineers, trouxe ao debate a perspectiva da indústria de tecnologia, em linha com os pontos apresentados pela moderação sobre integração e papel dos diferentes atores na linha de cuidado.
Ao iniciar sua fala, destacou a importância de reunir diferentes elos da cadeia em torno de um objetivo comum. “No final do dia, o que todos nós queremos é inovar a saúde para que as pessoas tenham melhor qualidade de vida e possam viver mais”, afirmou, ressaltando o valor de espaços de diálogo que promovam essa construção conjunta.
A partir daí, posicionou a indústria como agente facilitador nesse processo, especialmente no avanço da medicina diagnóstica para além da eficiência operacional. “Já passou o momento de buscar apenas mais volume ou melhor qualidade de imagem. Agora precisamos pensar em como integrar dados para impactar o desfecho clínico.”
Nesse sentido, destacou o papel da tecnologia na consolidação e qualificação das informações disponíveis ao longo da jornada do paciente, ampliando a capacidade de decisão dos profissionais de saúde. “Se conseguimos conectar diferentes tipos de dados e entregar informações mais curadas ao radiologista, conseguimos apoiar melhores decisões”, explicou.
Por fim, reforçou que a contribuição da medicina diagnóstica e da própria indústria está diretamente ligada à capacidade de apoiar pontos críticos da jornada, promovendo maior integração e melhores resultados. “Se a gente consegue suportar e facilitar para que as melhores decisões sejam tomadas, a gente está cumprindo o nosso papel”, concluiu.