
Presidente do Conselho de Administração do ICOS participou de encontro na Arena da Saúde sobre integração de dados, inteligência artificial e sustentabilidade do sistema de saúde.
Exames repetidos, informações dispersas e sistemas que não se conversam ainda fazem parte da rotina da saúde brasileira. A dificuldade de integrar dados segue impactando desde a gestão hospitalar até a coordenação do cuidado ao paciente.
O tema dominou a discussão realizada no primeiro dia da Hospitalar 2026, em 19 de maio, durante a programação da Arena da Saúde. O encontro reuniu o Giovanni Guido Cerri, presidente do Conselho de Administração do Instituto Coalizão Saúde (ICOS), e Ana Estela Haddad, secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde. A mediação foi conduzida por Francisco Balestrin, presidente do SindHosp e da FESAÚDE.
Ao longo do debate, Giovanni Guido Cerri destacou que a interoperabilidade passou a ocupar um papel estratégico para a sustentabilidade do sistema de saúde. Segundo ele, problemas como repetição de exames, desperdícios e dificuldades na coordenação do cuidado estão diretamente ligados à fragmentação das informações.
O professor também chamou atenção para o impacto da inteligência artificial sobre a capacidade de análise de dados na saúde. Para Cerri, o desafio atual já não está apenas no armazenamento de informações, mas principalmente na integração e padronização dessas bases para que elas possam gerar valor clínico real.
Como exemplo, citou o trabalho em andamento no Instituto de Inovação do Hospital das Clínicas, onde também é presidente, para construção de um data lake, estrutura centralizada que reúne informações de diferentes origens em uma única base de dados. A proposta é integrar registros hoje dispersos entre radiologia, laboratório e outras áreas para apoiar o planejamento terapêutico dos pacientes.
Durante a conversa, Cerri também abordou os avanços da radiômica, área que utiliza inteligência artificial para identificar padrões invisíveis ao olhar humano em exames de imagem. Estudos recentes já apontam a possibilidade de detectar alterações relacionadas ao câncer de pâncreas antes mesmo de manifestações clínicas evidentes.
A expectativa é ampliar a capacidade de antecipar doenças e personalizar tratamentos a partir da integração entre exames de imagem, genética, testes laboratoriais e histórico clínico. Foi nesse contexto que Cerri mencionou o conceito de teranóstico, abordagem que combina diagnóstico por imagem e tratamento dentro do mesmo protocolo terapêutico, especialmente na oncologia.
Outro ponto destacado pelo professor foi a importância de utilizar dados nacionais para formular políticas públicas mais adequadas à realidade brasileira, sem depender exclusivamente de modelos desenvolvidos em outros países. Para ele, uma infraestrutura robusta de dados permite gerar evidências a partir da própria população brasileira.

Apesar dos avanços tecnológicos, os participantes reconheceram que os obstáculos para a interoperabilidade vão além da tecnologia. Parte da resistência ainda está ligada à cultura institucional de retenção de informações.
Hospitais, operadoras, laboratórios e até profissionais de saúde historicamente trataram esses registros como patrimônio próprio, dificultando o compartilhamento de informações entre sistemas.
Para Cerri, essa lógica começou a mudar nos últimos anos. O especialista comparou o cenário ao sistema financeiro brasileiro, que conseguiu estruturar mecanismos seguros de compartilhamento de dados sem comprometer a competitividade das instituições. Segundo ele, cada organização pode manter seus próprios registros e compartilhar apenas o necessário.
Ao longo da discussão, Ana Estela Haddad destacou que o país ainda utiliza menos de 10% das informações que produz diariamente e afirmou que o governo trabalha para consolidar a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) como base de interoperabilidade em escala nacional, funcionando como tentativa de criar uma estrutura de compartilhamento seguro de informações clínicas no país.
A secretária também mencionou o avanço do Decreto 12.560/2025, que estabeleceu princípios ligados à soberania digital e ao compartilhamento de informações orientado pelo interesse do paciente.
Na parte final do debate, Balestrin levantou uma preocupação que atravessou toda a conversa: como garantir que os avanços atuais sobrevivam às mudanças de governo e se tornem políticas permanentes de Estado.
Para Ana Estela, o desafio envolve equilibrar participação pública, governança e interesses privados sem comprometer o interesse coletivo. Cerri concordou que a discussão ainda permanece em aberto.
A discussão integrou a programação da Arena da Saúde, iniciativa que segue reunindo lideranças do setor durante a Hospitalar 2026 para discutir os desafios da transformação digital e o futuro da integração de dados na saúde brasileira.