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Conversa girou em torno do caráter agregador da ciência, do cenário da pesquisa científica no Brasil e da participação das mulheres no setor

Biomédica, professora e pesquisadora, Helena Nader é a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Ciências (ABC) em 106 anos de existência da instituição. Autora de mais de 380 artigos em revistas científicas internacionais, e com a formação de 46 mestres e 51 doutores no currículo, a cientista conversou com o presidente do Instituto Coalizão Saúde, Claudio Lottenberg, em sua já tradicional live no Instagram, no dia 28/04.

O papo começou com a presença da mulher na área acadêmica no mundo todo, com Helena lembrando que a academia inglesa de ciência, a Royal Society, não teve uma mulher presidente até hoje. “Na área acadêmica, levou muito tempo para as mulheres chegarem às posições mais altas”, ponderou a cientista. “Então é um descompasso entre tudo o que as mulheres atingiram na ciência e os cargos mais elevados ainda estão aquém. Mas vamos chegar lá”.

O próximo tópico foi os desafios a serem enfrentados por Helena à frente da ABC, tendo em vista, principalmente, o atual cenário político. “Nós tivemos uma fase na qual a ciência foi desvalorizada por alguns, mas foi valorizada por outros”, analisou Lottenberg.

“Os desafios serão muitos”, começou respondendo a especialista. “Em especial, colocar a ciência no patamar que ela precisa estar para o Brasil ter soberania. A ciência reflete a soberania nacional. O Brasil acaba importando as tecnologias que poderiam ser produzidas aqui. Por isso eu vejo como um grande desafio levar essa pauta para os dirigentes, seja do Executivo, como no nível do Parlamento”.

Outro aspecto abordado foram as diferenças entre público e privado, e a relação entre as duas esferas. Em sua análise, Claudio Lottenberg afirmou parecer “complexa” a divisão entre as duas. Dentro dessa perspectiva, o presidente do ICOS quis saber da entrevistada como ela enxerga essa dialética, acrescentando a importância do complexo industrial da saúde.

“O complexo industrial da saúde é um tema que está sempre na minha cabeça, e ter abandonado a ideia de investir nesse complexo eu vejo como um erro estratégico do Brasil”, avaliou Helena. “O Brasil é um país continental e que poderia prover [tecnologia] para toda a América Latina e para os países africanos. Nós já fizemos isso, mas agora voltamos atrás. O país retrocedeu”.

Sobre o público e o privado, a cientista lembra de sua participação na empreitada, envolvendo diferentes órgãos do setor, de criar um marco legal que fortalecesse as parcerias público-privadas. “Por exemplo, dentro da CNI [Confederação Nacional da Indústria] há muitas indústrias que fazem inovação, e que poderiam se beneficiar do que as universidades produzem. É assim que o sistema americano acontece”.

Vale lembrar que, hoje, o país possui legislação que regulamenta essa relação. Porém, conforme apontou Helena, a prática ainda deixa a desejar. “Os órgãos de fiscalização ainda não entenderam a profundidade da alteração da Constituição, da lei e da regulamentação da lei”.

Big data e valorização da ciência

A variedade e o volume de informações geradas hoje, fenômeno que recebe o nome de big data, também foram abordados na conversa, no contexto da necessidade de formarmos profissionais aptos a lidarem com os desafios do futuro. “Quem imaginaria que o big data teria o impacto que tem hoje”, questiona Helena. “O Brasil tem um grande potencial de big data, o que temos de dados sobre doenças… Agora imagine se tivéssemos um prontuário eletrônico único no Sistema Único de Saúde”.

Complementando o raciocínio, Lottenberg comentou que, em sua visão, o “grande passo do Obama [Barack Obama, presidente dos EUA de 2009 a 2017] foi quando ele praticamente obrigou a implantação do prontuário eletrônico”. “Veja o que isso representou em termos de você poder usar todo esse conhecimento dentro de uma prática assistencial”, comentou o presidente do ICOS.

A realidade pós-pandemia foi alvo de análise no contexto de como a crise acabou suscitando movimentos de valorização da ciência por parte de toda a sociedade. “Apesar de tudo o que se falou contra, o brasileiro acredita na ciência”, sentenciou Helena. “Ele já acreditava antes e passou a acreditar mais. Eu vi recentemente uma pesquisa que apontou que os cientistas são as pessoas em quem a população mais confia”.