aretha Nenhum comentário

 

Recepcionado pelo Presidente da Associação Paulista de Medicina (APM), José Luiz Gomes do Amaral, que também mediu o painel, o Presidente do ICOS, Claudio Lottenberg, esteve entre os primeiros palestrantes da Global Summit 2020, logo na abertura do evento 100% online, no dia 13 de outubro. O tema da apresentação foi Saúde Digital: uma resposta para equidade.

Confira a seguir, os principais trechos de sua fala

Saúde: direito para toda a sociedade

“Um dos maiores dilemas, que vi ser debatido no início da minha vida enquanto gestor da nossa sociedade beneficente, era a visão da saúde dentro do contexto socioeconômico. O Fórum das Américas, um espaço destinado a debates, colocava a saúde dentro de uma visão eminentemente ligada à prática de negócios. E não seria uma visão equivocada, na medida em que ela gera emprego, traz inovações, propõe oportunidades para o desenvolvimento de atividades econômicas imprescindíveis para uma sociedade liberal como a que vivemos.

Por outro lado, era uma visão europeia da saúde, que a colocava dentro da perspectiva de um direito social. Também uma visão legítima – e eu diria, talvez, mais legítima. Porque eu hoje, após muitos anos, posso dizer que a saúde tem, sim, vertentes de negócio, de um aprimoramento de ferramentas de qualidade que melhoram sua performance, mas é um direito que nós temos a obrigação de garantir para toda a sociedade”

Oportunidades que nascem das dificuldades

“Somos cidadãos de mudanças. E daí a minha inquietude, particularmente no sentido da medicina digital e da telemedicina, de que me encontro um pouco desapontado pela velocidade com a qual temos tratado um assunto tão importante e que deveria já estar trazendo respostas para um país com mais de 210 milhões de pessoas – sendo que, em função da própria pandemia, nós devemos ter, em breve, um terço dessas pessoas abaixo da considerada linha da pobreza.

Temos hoje, na América Latina, uma condição populacional significativa: praticamente o dobro da população dos Estados Unidos – e se levarmos em consideração o aspecto federativo, como os Estados Unidos dá autonomia a cada um dos seus estados, a comparação é válida. E também, dentro desse mesmo parâmetro, temos um Produto Interno Bruto (PIB) que é metade do PIB da China. Portanto, é uma distribuição bastante pouco justa.

Por outro lado, no entanto, a gente tem aí uma grande oportunidade de transformar esse cenário de iniquidade se conseguirmos olhar oportunidades como as que o cenário digital pode trazer, no sentido de patrocinar um processo de maior equidade.

E a gente pode ver que esses 600 milhões de pessoas [população da América Latina em levantamento de 2019] representam hoje uma população com atividade socioeconômica bastante diferente daquilo que a gente observa em outros países. E o grande perigo que nós temos é que, em breve, a população economicamente ativa do nosso país vai dar espaço a uma população que não é economicamente ativa. Portanto, a carga que vai ocorrer, para dar conta das pessoas mais idosas, é bastante representativa”.

Empregabilidade e saúde

“Sempre bom lembrar que a empregabilidade tem um fator relacional implícito com as questões da saúde. A empregabilidade, com uma taxa de adesão aos seguros privados, significa um incremento de recursos para a saúde. Além disso, uma atividade econômica mais presente significa arrecadações maiores – e, portanto, mais recursos para a saúde. O que equivale dizer que a gente precisa, de fato, imaginar que a economia tem um papel diretamente relacionado com a área de saúde”

Comunicação digital

“É possível verificar também que há altos índices, na América Latina, de utilização da internet, maior que muitos lugares do mundo. Portanto, quando falamos em telemedicina, e a gente discute muito a utilização dessas ferramentas, vemos que o Brasil é um solo bastante fértil para que nós possamos explorar as questões da telemedicina. Comparativamente a outros, somos um país onde temos oportunidades – embora seja verdade que existem barreiras com relação à banda larga de internet, e mesmo para a utilização de smartphones, mas isso é uma questão de tempo e nós temos sido muito rápidos na adoção das tecnologias, principalmente aquelas que dizem respeito à comunicabilidade.

Recentemente, revi uma avaliação dos recursos de telemedicina por meio do WhatsApp – ferramenta de grande aplicabilidade e adesão. E são muito maiores que o e-mail ou o SMS: 99% dos smartphones utilizam WhatsApp, e 79% o utilizam como fonte primária de informação. Esses são bons indícios daquilo que pode representar a comunicabilidade, em termos de telemedicina, levando a um maior acesso e, com isso, à equidade.

Telemedicina como forma de patrocinar a equidade

Quando discutimos a telemedicina, eu sou um grande defensor. Não acho que ela possa ser feita de qualquer maneira. Ela precisa de uma regulação, mínima que seja; precisa garantir privacidade em relação às informações, deve ter seus próprios limites. E não é uma ferramenta para ser utilizada por médicos com pouca experiência – muito pelo contrário.

Mas ela é efetivamente uma grande bandeira na busca pela tal equidade. Negar a sistemática da telemedicina é não caminhar de acordo com o que está acontecendo com outras frentes, dentro de outras áreas de serviços. Nós temos assistido ao desenvolvimento de aplicativos que ajudam a telemedicina: para reconhecimento facial, para monitoramento de uma série de dados vitais,  e a utilização de recursos inclusive para suporte diagnóstico (como a ultrassonografia à distância).

Não podemos ter a telemedicina como algo absoluto – mesmo porque vamos ter que nos preparar para que possamos utilizar isso de forma mais corrente no futuro. Mas a gente não pode se negar a encarar esses desafios e deixar de fazer dela um bom momento, no sentido de patrocinar a equidade.

E é nosso papel, enquanto médicos, saber que temos uma responsabilidade que vai além da prática assistencial. É uma responsabilidade de liderança, de inclusão. E a telemedicina, nesse sentido, é um grande elemento que pode, de fato, nos aproximar dos nossos pacientes – dentro de limites, é óbvio. Mas descarta-la seria um equívoco”.